O PODER IRRESISTÍVEL DA COMUNHÃO NA IGREJA.

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Lição 4 - 1º Trimestre de 2011
Texto Bíblico: Atos 2.40-47
Texto Áureo: Ef 4.3,4

Comunhão e unidade são dois temas que não podem estar desassociados.

A COMUNHÃO DOS SANTOS


O termo grego para “comunhão” é koinonia, que significa “tendo em comum, sociedade, companheirismo”. Dentre outras coisas, denota a parte que alguém tem em algo: "É, assim, usado acerca: das experiências e interesses comuns dos cristãos (At 2.42; Gl 2.9)” (VINE, 2003 p. 485).

Arrington (2003, p. 639) afirma que:

A palavra "comunhão" (gr. koinonia) expressa a unidade da igreja primitiva. Nenhuma palavra em nosso idioma traduz seu significado completamente. Comunhão envolve mais que um espírito comunal que os crentes compartilham uns com os outros. É uma participação comum em nível mais profundo na comunhão espiritual que está em Cristo.

Desta forma, comunhão dos santos é mais do que a simples partilha de bens materiais, é o desfrutar comum das bênçãos espirituais e da participação no corpo de Cristo pelo Espírito.

O termo “santos”, do grego hágios, é geralmente utilizado no plural para identificar todos os que professam a fé em Cristo (Rm 1.7; 1 Co 1.2; Ef 1.1 ss).

A expressão “comunhão dos santos”, do latim communio sanctorum, não aparece na Bíblia, embora idéia esteja presente. O termo foi utilizado pela primeira vez por Nicéias (ou Nicetas) de Remesiana, por volta de 400 d.C.

Conforme o Dicionário Bíblico de Wycliffe (2006, p. 439), os ensinos sobre esta verdade se apresentam da seguinte forma:

- O surgimento da comunhão dos santos: A comunhão dos santos surge com o novo nascimento (Jo 3.1-12), sendo desta forma, limitada àqueles que estão em Cristo Jesus (2 Co 5.7). Por ter um Pai espiritual comum, possuem uma irmandade espiritual comum (Hb 2.11-13)

- A essência da comunhão dos santos: A comunhão representa a unidade espiritual que liga os crentes a Jesus e uns com os outros (Jo 15.1-10; 17.21-23; Ef 4.3-16). Embora transcenda os laços naturais (Gl 3.28; Cl 3.11), não elimina as diferenças comuns às pessoas (1 Co 7.20-24; Ef 6.5-9).

- Os resultados da comunhão dos santos: O compartilhamento mútuo das bênçãos materiais (Rm 12.13; 15.26, 27; 2 Co 8.4; 9.9-14; Fl 4.14-16) é um das manifestações visíveis desta comunhão. Em um nível mais elevado, como já colocamos, a participação nos dons espirituais (MT 25.15; 1 Co 12.1-31) dentro da comunidade cristã, é outra forma de manifestação da comunhão dos santos.

Barclay (2000, p. 7), identifica sete aspectos da comunhão que caracteriza a vida cristã:

- A comunhão que implica um compartilhar de amizade (1 Jo 1.3)

- A comunhão que implica um compartilhar dos bens materiais (Rm 15.25; 2 Co 8.4; 9.13; Hb 13.16)

- A comunhão que implica uma cooperação na obra de Cristo (Fp 1.5)

- A comunhão que implica uma convivência na comunidade da fé (Ef 3.9)

- A comunhão implica uma relação com o Espírito (2 Co 13.14; Fp 2.1)

- A comunhão implica uma relação com Cristo (1 Co 1.9; 10.16; Fl 3.10)

- A comunhão implica uma relação com o Pai (1 Jo 1.3, 6)

A koinonia cristã, conforme Barclay, é aquele vínculo que liga os cristãos uns aos outros, a Cristo e a Deus.

A COMUNIDADE DOS BENS

Existem evidências históricas de que a “comunidade dos bens”, entendida como a participação comum de um grupo em todos os bens dos membros deste grupo, foi idealizada por Pitágoras (Kenner, 2004, p. 345) como um modelo utópico e ideal de convivência. Williams (1996, p. 78) e Champlin (2001, p. 824) fazem referência citação de Filo louvando os essênios por esta prática. Josefo (2005, p. 827) relata sobre os essênios:

Possuem todos os bens em comum, sem que os ricos tenham maior parte que os pobres”. E ainda, “Assim, eles se servem uns dos outros e escolhem homens de bem da ordem dos sacerdotes, que recebem tudo o que eles recolhem de seu trabalho e têm o cuidado de fornecer alimento a todos. (Idem)

O Novo Testamento registra em várias passagens esta prática (Jo 12.6; Lc 8.3; At 4.36, 57 e 5.1), estando o principal episódio registrado em Atos 2.42-47. Para Champlin (Idem):

A partilha informal, naturalmente alicerçada sobre o amor de um crente por outro, é o padrão das virtudes cristãs, mas isso não precisa transformar-se em uma partilha formal e obrigatória de bens.

IGREJA E COMUNISMO

Alguns defendem a idéia de que Atos 2.42-47 é uma proposta bíblica para o comunismo. “Porém, não há qualquer dogma, no Novo Testamento, no sentido de que a experiência deveria ser universal, compulsória e permanente”. (ibdem, p. 826). Observemos a posição de outros estudiosos das Escrituras:

O fato de mais tarde Barnabé ser destacado por vender uma propriedade indica que esta prática não é algo que todos os crentes fazem (At 4.36,37). Os novos crentes estão dispostos a compartilhar suas possessões quando surgem necessidades (v. 45). O termo comunismo não descreve esta prática. Antes, eles estão expressando amor espontâneo, e é completamente voluntário. (ARRINGTON, 2003, p. 640)

“O amor cristão manifestou-se num programa social de assistência material aos pobres. Essa atitude cristã de partilhar com os outros parece que se limitou aos primeiros anos da igreja de Jerusalém e não se estendeu às novas igrejas conforme o Evangelho foi sendo levado através da Judéia.” (PFEIFFER; HARRISON, 1987, p. 245)

Um dos resultados foi a prontidão dos crentes em partilhar seus bens uns com os outros. Isto se tornou prática comum entre os crentes. O verbo está no imperfeito e podia ser traduzido assim: ‘continuavam a usar todas as coisas em comum’. Para esses cristãos a espiritualidade era inseparável da responsabilidade social (Dt 15.4s; At 6.1-6; 11.28; 20.33-55; 24.17 ss). Parece que o comunitarismo teria sido uma solução provisória neste caso, e necessário naquela circunstância. (WILLIAMS, 1996, p. 77)

É verdade que Jesus ordenou a um jovem governante rico que vendesse os seus bens e desse o dinheiro aos pobres (Lc 18.18-30), mas a razão para a ordem era testar a fé, e não forçar um nivelamento social e econômico. [...] Jesus disse: ‘Porquanto sempre tendes convosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre’ (Mt 26.11). (PFEIFFER; VOS; REA, 2006, p. 440)

Que conclusões podem ser tiradas, então, com respeito à abordagem bíblica ao comunismo? Em primeiro lugar, A Bíblia certamente não apóia o Comunismo Marxista com sua filosofia anti-Deus e seu conceito de guerra de classes. Várias passagens (por exemplo Ef 6.5-9; Cl 3.22; 4.1) admoestam os trabalhadores a ter boas relações com os seus patrões e vice-e-versa. Segundo, a posse pública da propriedade entre os crentes parece ter sido restrita a Jerusalém. (Idem)

Para concluir, entendo que tanto o Capitalismo Selvagem, quanto o Comunismo Utópico, são sistemas sócio-político-econômicos desprovidos dos princípios bíblicos de amor, comunhão, voluntariedade e generosidade.

Como bem colocam Pfeiffer, Vos e Rea (Idem, p. 441):

Se os crentes hoje desejarem viver em um acordo onde os cristãos tenham a posse pública dos bens, eles devem se sentir livres para assim proceder; mas a Escritura não os obriga a viver desta maneira, e eles não devem julgar os outros crentes que preferem usufruir a posse privada da propriedade. Todos devem lembrar de que são meramente mordomos de tudo o que Deus lhes tem dado, e que são exortados a exercitar a mordomia fiel das posses que lhe foram confiadas.

A UNIDADE ORGÂNICA DO CORPO DE CRISTO

O texto de 1 Co 12.12-27, que trata da unidade orgânica da Igreja, nos possibilita a compreensão de verdades essenciais para a transformação da nossa maneira de ser, pensar, falar e agir sobre este organismo vivo e espiritual no qual estamos inseridos, do qual fazemos parte.
- Fomos todos batizados em um corpo (v. 13a)
Em termos orgânicos e espirituais, a Igreja não é formada de “corpos”, antes, é um corpo formado de “membros”. Os verdadeiros cristãos, independente de onde estejam, separados por barreiras denominacionais, doutrinárias, ideológicas, conceituais, geográficas, sociais ou qualquer outra, são membros “colocados” para dentro de um único corpo.
- Bebemos todos de um só Espírito (v. 13b)
O Espírito é a fonte de onde emana vida espiritual. Pelo Espírito somos saciados e nutridos com a vida de Deus. Todo o corpo com os seus membros podem funcionar perfeitamente, pois não haverá escassez desta água renovadora. Todos podem beber, pois não há acepção de órgãos. Não há privilégios apenas para alguns. A fonte é abundante e inesgotável.
- Temos o sentido de ser e fazer apenas na relação com o outro (v. 14-23)
A interdependência é a tônica que rege os órgãos do corpo. Um órgão não tem sentido sem o outro, pois só existe para servir, não é um mero adereço no corpo. Nenhum órgão subsiste naturalmente fora do corpo. Só no corpo ele “é”, e apenas no corpo ele “faz”, se realizando numa relação de reciprocidade de serviço e de utilidade. Ser órgão é ser “parte de”, e não “ser em si”.
- Precisamos ter cuidado com o que pensamos e dizemos (v. 15, 16 e 21)
O pensamento precede a fala. A boca fala daquilo que o coração está cheio. A fala manifesta os segredos da alma. O fato de achar e dizer que não somos do corpo não nos tiram do corpo. Afirmar que não precisamos um outro, além de manifestar arrogância, revela também o nosso auto-engano. Precisamos sim um dos outros. Não podemos negar isto com ações ou palavras. Sozinhos não iremos longe. Sozinhos morreremos.
- Contentemo-nos com a posição que ocupamos no corpo (v. 18 e 24)
É necessário saber que é Deus quem dispõem, coloca, coordena e concede lugares, funções e honras no corpo. Não é simplesmente uma escolha pessoal, antes, se trata de uma determinação soberana e graciosa. Soberana, pois tudo é de Deus, e graciosa, pois não é meritória, não é fruto de nossas obras ou méritos pessoais ocupar este ou aquele lugar, esta ou aquela função, receber esta ou aquela honra. Tudo é dele e para Ele.
- Cuidemos uns dos outros com igual cuidado (v. 25)
É preciso entender que somos como membros do mesmo corpo, cuidadores. Cuidar implica em nutrir, suster, socorrer, ajudar, ouvir, apoiar e outras ações. Mas, não devemos apenas ser cuidadores. Precisamos cuidar de todos sem acepção, sem preferencialismo. É fazer o bem sem ver a quem. Trata-se de ação misericordiosa e desinteressada. Cuidar é amar. Cuidar é fazer o que deve ser feito, norteado pelos mais nobres sentimentos e objetivos.
- Soframos com o sofrimento alheio (v. 26a)
A indiferença para com o sofrimento dos outros órgãos do corpo, por suas disfunções, enfermidades, carências ou doenças, não é uma atitude esperada ou desejada de quem está comprometido com o todo. Chorai com os que choram. Se coloque no lugar do outro. Tente perceber suas dores, medos, temores, ansiedades, angústias e frustrações.
- Alegremo-nos com a alegria alheia (v. 26b)
A inveja, conceituada como “profunda tristeza com o sucesso, conquistas, vitórias, bênçãos e felicidade dos outros” pode impedir, de alegrarmo-nos com a alegria do no nosso irmão, do outro membro. Celebremos, festejemos, regozijemo-nos, alegremo-nos quantas vezes for necessário com a forma de Deus honrar o nosso próximo.
- Tenhamos uma visão geral do corpo (v. 27a)
Uma visão geral nos possibilita uma compreensão macro da unidade, da comunhão, da interdependência, da grandeza, da beleza, da magnitude, da força, da vitalidade, do crescimento, da força, da inteireza de ser corpo de Cristo. Trata-se de uma visão onde o “eu” se funde com o “tu” formando um “nós”.
- Tenhamos uma visão sistêmica do corpo (v. 27b)
Tal visão nos proporciona uma percepção mais apurada e individualizada da multiplicidade de funções (multifuncionalidade) dos órgãos e membros, das suas particularidades, atribuições e interligações. Das nossas possibilidades de agregar valor ao corpo, e do valor que os demais membros agregam a este corpo.
Uma compreensão da unidade orgânica do corpo é vital para o seu próprio crescimento, para a manutenção de sua saúde e funcionalidade, tanto numa perspectiva do todo, como na perspectiva de cada membro deste corpo.
UNIDADE DOUTRINÁRIA
Sobre "unidade doutrinária", recomendo a leitura dos posts abaixo, publicados neste blog, que expressa a realidade que vivenciamos em termos de Assembleia de Deus no Brasil:
UNIDADE DENOMINACIONAL
Em pleno ano do Centenário, vivenciamos também uma crise na unidade denominacional. Tal crise é caracterizada:
- Pelos litígios convencionais e ministeriais nos estados e regiões, onde em alguns lugares os membros e obreiros de uma convenção, ministério ou igreja, são proibidos de visitar ou participar da atividade da "outra", sob pena de disciplina ou exclusão. É verdade que alguns litígios são provocados pela ganância, vaidade, falta de respeito e de submissão de alguns. Nestes casos, os órgãos competentes deveriam cooperar na busca de soluções que promovessem o mínimo de respeito possível, não deixando a coisa correr à revelia. É bom também salientar, que há casos onde a Bíblia recomenda a não associação com alguns que se dizem "irmãos", mas que não vivem de acordo com o Evangelho de Jesus (1 Co 5.11-13).
- Pela "mercadologização" da fé, onde igrejas são abertas da mesma forma que se abre uma loja, sem "cliente" algum (ou poucos), mas sob a confiança dos empresários da fé em estratégias de crescimento fundamentadas em técnicas de marketing, uso da mídia e "pescarias em aquários".
- Pela neopentecostalização do pentecostalismo clássico assembleiano, onde no culto vale de tudo para atrair o povo. Quem disse que as sete voltas de Jericó, os sete mergulhos no Jordão, o culto da vitória, o culto da prosperidade, o culto de quebra de maldição, a determinação de bênçãos e coisas semelhantes a estas ainda são "privilégios" apenas dos neopentecostais. Pois é amados, muitos já adeririam àquilo que alguns teólogos e sociólogos chamam de "a terceira onda do pentecostalismo".
Talvez alguns se contorçam diante do aqui exposto, que trata de fatos presentes também na igreja primitiva e tratados abertamente no Novo Testamento (penso que muitos se contorceram na época com as declarações de Paulo), mas não podemos fingir que nada está acontecendo, tentando procrastinar soluções ou mascarar a realidade com belos discursos e grandes festividades.
Estudar uma lição bíblica deste nível, sem procurar aplicar os seus ensinamentos à nossa realidade, é pura retórica, é mero auto-engano, é um pecado grave.
Busquemos a verdadeira comunhão e unidade bíblica, sejamos cumpridores da Palavra, e não nos enganemos com falsos discursos (Tg 1.22)
BIBLIOGRAFIA


ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

BARCLAY, William. Palavras chaves do Novo Testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000.

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 5. ed. São Paulo: Hagnos, 2001. v. 1

GERMANO, Altair. Estudos bíblicos e escritos. Recife-PE: Edição do Autor, 2010.

JOSEFO, Flávio. História dos hebreus: de Abraão à queda de Jerusalém obra completa. 9. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

PFEIFFER; Charles F.; HARRISON, Everett F. Comentário Bíblico Moody: os evangelhos e atos. São Paulo: IBR, 1997. v. 4

______; VOS, Howard F.; REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

KEENER, Craig S. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Belo Horizonte: Atos, 2004.

VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR, William. Dicionário Vine. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. São Paulo: Vida, 1996.

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